“Geocronologia Pb/Pb em zircão e Sm/Nd rocha total da porção centro-norte do Estado do Amapá. Implicações para a Evolução Geodinâmica do Setor Oriental do Escudo das Guianas”.

Valter Gama de Avelar[1]

[1] Doutor em Geociências e professor/pesquisador Associado IV, dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação/Mestrado em Geografia, da Universidade Federal do Amapá. Coordenador do Grupo de Pesquisa GEOdiversidade do Amapá/GPGEO/PPGEO/CNPq/UNIFAP. email: valtergamaavelar@gmail.com; homepage: https://www.valteravelar4geos.wordpress.com

EVOLUÇÃO GEOdinâmica do SE do ESCUDO DAS GUIANAS

RESUMO

            O Escudo das Guianas é considerado como um extenso domínio paleoproterozoico o qual teve sua evolução principal relacionada ao Evento Orogênico Transamazônico (2,2-1,9 Ga). Registros de uma história arqueana foram obtidos em rochas metamórficas e ígneas do Complexo Imataca na Venezuela (>3,0 Ga). Na porção oriental do Escudo das Guianas, no SE, idades Rb/Sr e Sm/Nd, obtidas para rochas granulíticas e ortognáissicas da região central do Estado do Amapá (2,45 Ga e 3,0 Ga) também assinalam a existência de relíquias arqueanas.

            Um conjunto de dados Pb/Pb em zircões e Sm/Nd em rocha total (TDM) é apresentado para as rochas metamórficas, metassedimentares e granitóides das regiões central e norte do Estado do Amapá e da fronteira com a Guiana Francesa. Esses novos dados visam trazer novas referências cronológicas para unidades chaves da área, de modo a estabelecer uma cronologia detalhada dos eventos termo-tectônicos do Orógeno Transamazônico e investigar a existência e extensão de segmentos de crosta paleoproterozoica novamente acrescida e de crosta arqueana retrabalhada, nesse setor do Escudo.

A porção oriental do Escudo das Guianas (OEG) inclui o Estado do Amapá, no Brasil e a Guiana Francesa. Essa porção do EEG integra a Província Maroni-Itacaiúnas (PMI), considerada uma faixa móvel paleoproterozoica acrescida a um bloco arqueano (Província Amazônia Central-PAC), entre 2,2-1,95 Ga. Os limites da PMI com os domínios adjacentes (PAC e Ventuari-Tapajós) não estão ainda bem definidos, constituindo-se num ponto em aberto.

            Vanderhaeghe et al. (1998) e Delor et al. (no prelo) apresentaram um modelo de evolução Transamazônica para o EEG (2,2-2,0 Ga), sustentado por dados geoquímicos, estruturais e geocronológicos obtidos na Guiana Francesa. Nesse modelo, um primeiro estágio de evolução crustal eo-Transamazônica corresponde ao maior período de geração de crosta juvenil relacionada à abertura oceânica e a formação de terrenos granito-greenstones (2,2-2,17 Ga). Um segundo estágio é marcado pela formação e aglomeração de arcos magmáticos eo- e meso-Transamazônico (2,18-2,12 Ga) com magmatismo calco-alcalino associado. O terceiro estágio envolve um contexto continental com reciclagem crustal, marcado por tectônica essencialmente transcorrente, e formação de granitos, principalmente alcalinos a per-aluminosos, por anatexia crustal (2,10-2,08 Ga).

            No Estado do Amapá, ortognaisse tonalíticos da região de Cupixi (região central) definiram idades Rb/Sr e Sm/Nd entre 2,94 e 3,1 Ga. Nesse mesmo setor, uma idade Rb/Sr de 2,45 Ga foi definida para as rochas granulíticas, confirmando assim a existência de fragmentos de crosta arqueana para a região.

Sequências greenstones (xistos máficos e ultramáficos com afinidades komatiíticas e rochas metassedimentares) estão incluídas no Grupo Vila Nova, que na região SW do Amapá foram datadas pelo método Sm/Nd em 2,26 Ga. Granitóides e ortognaisses transamazônicos (composição calco-alcalina até sienogranítica) predominam no Amapá. Na região norte um tonalito apresentou uma idade U/Pb de 2155 ± 13 Ma, enquanto na porção central, rochas migmatíticas associam-se a um magmatismo potássico ocorrido a 2,06 Ga. Intrusões félsicas e alcalinas pós-Transamazônicas ocorrem no Amapá e foram respectivamente datadas pelo método Rb/Sr em 1,76 Ga e 1,68 Ga.

            Neste trabalho um conjunto de 29 amostras foi analisado pelo método Pb/Pb em zircão e/ou Sm/Nd rocha total: Na região central do Amapá, os dados Pb/Pb em zircões de granulitos félsicosda região de Tartarugal Grande, forneceram uma idade em torno de 2,6 Ga. Um plúton charnoquítico da mesma área definiu uma idade Pb/Pb de 2053 ± 1 Ma. Nas imediações de Cupixi os dados Pb/Pb em zircões obtidos para os ortognaisses tonalíticos definiram idades 2845 ± 6 Ma. Um mobilizado granítico desta mesma rocha forneceu idades Pb/Pb num intervalo de 2,13-2,07 Ga. Um monzogranito forneceu idade de cristalização de 2055 ± 6 Ma e idades de até 2,56 Ga associadas a um componente herdado. As idades T(DM) para todas essas rochas situaram-se no intervalo de 2,70 Ga até 3,2 Ga.

            Para a porção norte do Amapá diversos sienogranitos forneceram idades de cristalização de 2107 ± 2 Ma, 2098 ± 2 Ma e 2087 ± 3 Ma. Zircões de um outro sienogranito e um Alkali-feldspato granito apresentaram idades no intervalo de 2,05-2,13 Ga e 1,95-2,10 Ga respectivamente. Este último granito apresentou também zircões herdados com idades de 2,54-2,60 Ga. Zircões de um diorito forneceram uma idade de cristalização de 2181 ± 2 Ma. As idades modelo T(DM) para esse conjunto de rochas espalharam-se no intervalo de 2,18 Ga até 2,75 Ga. Na região de fronteira com o SE da Guiana Francesa, ao longo do rio Oiapoque, zircões de um sienogranito e de uma intrusão de gabro apresentaram idades de cristalizações respectivas de 2096 ± 2 Ma e 2099 ± 1 Ma. Dados Pb/Pb em zircões detríticos de um quartzito, associado ao Grupo Paramacá, forneceram idades entre 3,19-2,76 Ga para as fontes dos sedimentos.

            Os dados obtidos posicionam a região centro-norte do Amapá no contexto da evolução geodinâmica Transamazônica do OEG, e mostram ainda que essa teve uma evolução arqueana:

Evolução Transamazônica (2,18-2,05 Ga) – Um episódio calco-alcalino (diorítico e tonalítico) entre 2,18 Ga e 2,15 Ga foi identificado. Este pode estar relacionado à formação de arcos magmáticos eo- e meso-Transamazônicos. Um segundo episódio magmático, de afinidade alcalina (2,11-2,08 Ga), é relacionado ao estágio colisional caracterizado por tectônica essencialmente transcorrente e anatexia crustal. A colocação de um plúton charnoquítico com idade de 2,05 Ga, na região central do Amapá, sugere uma idade tardi-transamazônica para o metamorfismo de alto grau identificado, neste mesmo setor, em rochas granulíticas com protólito arqueano em torno de 2,6 Ga. O resfriamento regional pós-orogênico e registrado pelos sistemas isotópicos K/Ar, Ar/Ar e Rb/Sr de minerais entre 2,05-1,80 Ga.

Os dados Sm/nd obtidos para os granitóides transamazônicos (2,18-2,05 Ga) da porção centro-norte do Amapá determinam um intervalo principal de idades entre 2,7-2,15 Ga. Estas idades são interpretadas em termos de mistura de um componente arqueano (3,0-2,6 Ga) e um magmatismo juvenil paleoproterozóico em torno de 2,1 Ga. Os zircões herdados com idades de 2,6 Ga até 2,9 Ga, encontrados em alguns desses granitóides paleoproterozóicos, indicam também a existência de uma crosta neoarqueana retrabalhada durante o Orógeno Transamazônico.

Evolução Arqueana (3,1-2,6 Ga) – As idades modelo Sm/Nd (TDM) e Pb/Pb em zircão indicam o envolvimento de uma crosta meso- a Neoarqueana no OEG. Na região central do Amapá o período principal de acreção crustal está definido pelos dados Sm/Nd entre 3,2-2,70 Ga. Dois episódios magmáticos foram identificados a partir dos dados Pb/Pb em zircão: um a 2,85 Ga e outro em torno de 2,6 Ga. Esses resultados confirmam a presença de núcleos arqueanos preservados, com evolução similar à crosta arqueana da Província de Carajás.

            Na região norte do Amapá e na fronteira com o SE da Guiana Francesa testemunhas de crosta arqueana são registradas apenas em zircões detríticos (3,2-2,7 Ga) de metassedimentos e zircões herdados de granitóides e ortognaisses. As idades modelo (TDM) entre 2,18 e 2,75 Ga (granitóides) indicam uma mistura entre uma crosta arqueana reciclada e uma crosta paleoproterozóica juvenil.

            Os dados Pb/Pb em zircão e Sm/Nd rocha total (TDM) indicam uma evolução transamazônica da região centro-norte do Amapá similar a da Guiana Francesa, no período entre 2,2 e 2,08 Ga. Esse setor do SEEG se diferencia, no entanto pela presença de uma crosta arqueana e pela existência de um evento de alto grau tardi-Transamazônico. Os resultados apresentados são compatíveis com os dados geocronológicos obtidos no âmbito do projeto RENCA, para a porção SW do Estado do Amapá na fronteira com o Estado do Pará, os quais apontam novamente para um episódio magmático calco-alcalino a 2,15-2,14 Ga e identificam a presença de núcleos preservados com idades entre 2,58 e 2,80 Ga.

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